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Desmame ou estresse podem levar gatos a 'mamar' em tecidos ou dedos

AMARÍLIS LAGE da Revista da Folha

Nem ração nem peixe. O que a gata Gisele gosta mesmo é de um bom pedaço de pano. Assim que sobe no colo da dona, busca uma ponta da blusa dela, coloca na boca e começa a "mamar" --melhor ainda se for uma camiseta de algodão. "Acho que ela me adotou como 'mãe' dela", conta a webdesigner Denise Tomi Lopez, 51.

O hábito de "mamar" em pedaços de pano ou mesmo no pescoço e no dedo do dono é comum entre os felinos, não importa a idade --Gisele, por exemplo, está longe de ser filhote, tem dois anos e meio. Na maioria dos casos, o gesto está relacionado ao desmame precoce, como aconteceu com Cindy, outra gata de Denise, que sempre "mama" na pontinha do lençol antes de dormir.

"A dona disse que não poderia ficar com a ninhada por mais tempo, e ela foi separada da mãe quando tinha um mês." O ideal é que os filhotes permaneçam com a mãe e mamem por um período mínimo de 70 dias. "O leite materno confere imunidade ao filhote por cerca de 60 dias, mas o melhor é deixar o gatinho junto à mãe por pelo menos três meses", segundo Luciana Deschamps, veterinária da clínica Sr. Gato.

Mesmo gatos que mamaram bastante, porém, podem desenvolver o hábito, como uma forma de demonstrar satisfação ou estresse. "Às vezes, o contato com a mãe era tão afetivo que fazem isso para relembrar aquela sensação boa de quando eram filhotinhos. Tentar intervir ou persuadi-lo a não fazer isso é um pecado, pois é uma atitude de carinho e tranqüilidade", explica Luciana.

Já o gato Darwin gosta de "mamar" pelo motivo oposto: estresse. "Sempre que vai ao veterinário ou que algo muito diferente acontece na casa, ele parece que regride, finge que é filhote e resolve agir assim", conta a designer gráfica Isabel Caballo, 66. O local escolhido pelo gato, porém, é mais inusitado: o pescoço da dona. "É como se fosse um beijinho", diz.

Denise também não se incomoda com as manchinhas de saliva que as gatas costumam deixar em suas blusas e nos lençóis. "Acho que isso mexe com o espírito materno da gente. Elas terminaram virando as xodós da casa", conta.

Mas o veterinário Zohair Saliem Sayegh, 58, presidente da Sociedade Paulista de Veterinária, alerta para o risco de o gato acabar ingerindo fios de tecido, prejudiciais à saúde. "Aquele material acaba formando um corpo estranho no estômago dele, pois o animal não consegue eliminar os fios da mesma forma como expele as bolas de pêlos."

Ele sugere que não se deixe o animal sugar tecidos que possam desfiar. "A pessoa precisa estimular o gato a brincar. Na falta desse tipo de atividade, ele inventa algo lúdico para fazer e uma dessas coisas é 'mamar', mas isso não é o ideal."

Pelo jeito, não são só os seres humanos que precisam aprender a deixar as alegrias da infância para trás.